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Escola Praia do Riso: Um espaço de resistência frente à expansão urbana do bairro de Coqueiros.

Série de reportagens produzida pela Folha de Coqueiros, mostra a importância de uma escola privada inserida no coração do bairro de Coqueiros, região continental de Florianópolis. Para tanto, a jornalista Sibyla Loureiro entrevistou profissionais envolvidos em cada área de destaque da instituição: biólogo Kiko Bungus; arquiteta Silvia Lenzi; arqueóloga Isabela Guimarães; educadora ambiental Gabriela Goulart e coordenadora e uma das fundadoras da escola Kátia Borges. Seguem abaixo os links com as matérias.

Foto Divulgação/Escola Praia do Riso

Em meio à verticalização desenfreada e desmatamento crescente na região Continental de Florianópolis, uma escola vem se destacando no bairro de Coqueiros. É a Escola Praia do Riso que acaba de completar 43 anos junto à comunidade local. Fundada numa chácara, à beira-mar, a instituição resiste às mudanças climáticas e ao concreto graças à preservação de uma imensa área verde, à manutenção do patrimônio cultural e à valorização da infância.

Localizada na Rua Bento Góia, em frente à pequena Praia do Riso e à Colônia de Pescadores, a escola reúne recantos para atividades lúdicas, salas de aula, cantina, espaço de convivência coberto, batizado pelas  crianças de Nosso Lugar, quadra de esporte, horta, agrofloresta e muita história pra contar.

A começar pela Casa Rosa, um imóvel construído no início do século XX e que ainda conserva a arquitetura da época. Um bom exemplo é a sala onde está abrigada a biblioteca. Desde os vitrais nas janelas até o pé-direito elevado, tudo remete a um chalé de estilo eclético. “Um exemplo de respeito adotado pela comunidade escolar em manter o seu valor histórico”, define a arquiteta Silvia Lenzi.

Foi na Casa Rosa, inclusive, que iniciaram as primeiras turmas de estudantes, em 1983. Hoje, além da biblioteca, funciona a sala de administração e espaços destinados aos alunos que frequentam o turno integral.

Os ambientes, ali, foram preparados para acolher os alunos como se eles estivessem na própria casa. Tem a sala do soninho, a sala para oficinas e brincadeiras, a sala para fazer tarefas. “Temos como princípio o respeito às necessidades da criança. Um tempo para brincar, um tempo para descansar e um tempo para preparar as tarefas”, coloca a coordenadora e uma das fundadoras da instituição, Kátia Borges.

Ao seu redor, árvores centenárias mantêm o equilíbrio ecológico do local. As figueiras, por exemplo, que ficam no terreno próximo ao mar, são um refúgio para avifauna: socós, garças, biguás e até um casal de jacus e um aracuã, espécies raras encontradas em um ambiente urbano, foram avistadas no local. “Trata-se de uma área verde remanescente no bairro de Coqueiros que mostra a raridade desse lugar”, aponta o biólogo Rodrigo Pelágio Alves Ferreira, o conhecido Kiko.

Como se não bastasse, há sete anos foi descoberto no pátio um sítio arqueológico do tipo Sambaqui, prioritariamente, com a presença de cerâmica Guarani. Classificação feita pelo Iphan, depois de a comunidade escolar encontrar uma ossada humana, conchas, terra escura e diversos fragmentos de cerâmica. 

“Um diferencial, primeiro, por achar um sítio arqueológico no Continente. Em segundo lugar, por apresentar vestígios de cerâmica associada à tradição Tupi-guarani, o que não é comum. Sendo assim, ele se torna rico por contemplar diferentes tipos de sítios arqueológicos em um só.  E o melhor: por estar preservado, permite novas pesquisas”, assegura Isabela Guimarães, arqueóloga do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Para a coordenadora, Kátia Borges, foi uma grande emoção ver os pedaços de ossos encontrados, por engenheiros, durante o trabalho de escavação do terreno para o replantio de uma árvore e início de obra na entrada da escola. “Um privilégio saber que aqui habitaram nossos antepassados e deixaram as suas marcas”, celebra.

PATRIMÔNIO CULTURAL

Todo esse conjunto mostra o valor histórico da propriedade que já ganhou, especialmente, o reconhecimento e o carinho da comunidade de Coqueiros. “Só falta, agora, o poder público reconhecer a importância de se proteger a edificação para a memória de Coqueiros e da cidade de Florianópolis”, defende a arquiteta Silvia Lenzi.

Para tanto, a coordenação da escola já entrou com processo de tombamento na Secretaria Municipal de Planejamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Smphdu), para reconhecer a Casa Rosa como Patrimônio Cultural do Município.

De acordo com a Prefeitura de Florianópolis, estudos técnicos já foram realizados e apontaram a relevância patrimonial do imóvel. No momento, o processo encontra-se em tramitação na Comissão Técnica do Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Município (Cotesphan) e, após análise, segue para o Conselho da Cidade.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Considerado o coração da escola, o pátio é a extensão das salas de aula. No local, acontecem as festas, as brincadeiras, os banhos de mangueira, a ciranda dos livros e a descoberta das frutas ao pé das árvores.

E é no pátio também que as crianças praticam outras atividades. Entre elas, o lanche coletivo que ensina os alunos a partilharem os alimentos. E o melhor: é feito em grandes mesas junto à natureza.

Ainda no pátio, um projeto de educação ambiental tem confirmada a importância da reciclagem de resíduos. Desde que foi implantado, há três anos, mais de 19 toneladas de material orgânico foram desviadas do aterro sanitário. “Tudo começa na separação correta da sobra de alimentos”, diz a educadora ambiental, Gabriela Goulart.

Na hora do lanche, as crianças já separam as cascas das frutas, os restos de pão, de bolachas e as demais sobras de alimentos. Tudo é depositado num baldinho que fica em cima das mesas – cada turma tem o seu – e o ajudante do dia leva para um residuário em frente à cozinha, como se fosse um Ponto de Entrega Voluntária (PEV) de resíduos.

Dali, vão para as bombonas e, após, para a área de compostagem. Além de distribuído às famílias, o adubo produzido é espalhado ao redor das árvores e em dois novos espaços criados na escola: a agrofloresta e a horta. “É o momento em que as crianças mais gostam, pois mostra o resultado do trabalho que todos se envolveram”, diz Gabriela.

Acompanhar o ritmo da natureza também se integrou ao aprendizado em sala de aula. “Quando as crianças visitam a agrofloresta, a horta e a compostagem é como se elas estivessem vivendo, na prática, o que está no livro. Então, esses espaços são verdadeiros professores”, acentua.

INFÂNCIA COMO DIREITO

Referência no ensino infantil, a Escola Praia do Riso se destaca pelo projeto pedagógico que, entre outros fatores, valoriza a infância como parte importante do desenvolvimento das crianças. Ele se baseia, principalmente, no aprendizado amparado por experiências e respeito. 

“Quando criamos a escola, em 1983, buscamos transformar o espaço num lugar vivo, num lugar onde a criança pudesse realmente vivenciar as experiências tão importantes para o seu desenvolvimento. A convivência, a brincadeira, o contato com a natureza”, comenta Kátia.

Mãe de ex-aluno da instituição, a arquiteta Silvia Lenzi considera questões como essas fundamentais pra relação de homem-terra, homem-natureza e pergunta: Qual é o lugar em Florianópolis, na área urbana, que as crianças seguem a pisar na terra? Chegam sujas em casa? Tomam banho de mangueira?”.

“Na medida que as crianças trazem a memória dessa convivência, elas levam esse valor para o resto da vida. Elas saem da frente das telinhas e mantêm aquela identidade que a gente chama de criança raiz. A criança que vê a fruta nascer, que pega a fruta do galho, que sobe na árvore”, atesta.

Diante da especulação imobiliária na cidade, Silvia, que mora no bairro e acompanhou o crescimento da região, se diz preocupada com a real ameaça de se perder uma área verde carregada de memória no chão, na terra, na casa.

“Se você falar com cada um dos alunos, eles vão contar a história do pátio, da árvore que eles subiram, das lendas da Maria Sangrenta, que eles tinham medo, e do marinheiro que morava ali. Então, temos que zelar por esse lugar, não só pela escola, não só pela comunidade, mas por toda a cidade, pois é uma referência importante também pra todos que moram em Florianópolis”, proclama.

GESTÃO

A Associação Pedagógica de Pais e Professores (APPR) é administrada por um conselho de pais e professores, eleito a cada dois anos. Trata-se de uma escola privada, mas sem fins lucrativos e de gestão transparente. Segundo o Ministério da Educação e Cultura (MEC), a APPR mantém um formato de escola comunitária que baseia-se na parceria entre escola, família e comunidade. Chamada popularmente de Escola Praia do Riso, a instituição é especializada na Educação Infantil e no Ensino Fundamental de 1° a 5° ano.

Texto: Sibyla Loureiro Goulart

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