Trata-se de um sítio arqueológico que traz vestígios do primeiro povoamento de Santa Catarina. Descoberto em 2019, está preservado na escola.

Há sete anos, a Escola Praia do Riso ganhou um novo capítulo na sua longa história. Foi descoberto, em 2019, um sítio arqueológico no pátio, durante a escavação de parte do terreno para o início de uma obra. Ao se deparar com uma ossada humana, o engenheiro – que replantava uma árvore de local (foto) – teve um sobressalto e entregou o material aos professores.
“O achado paralisou a escola e, imediatamente, a coordenação comunicou o fato ao Museu de Arqueologia da Universidade Federal de Santa Catarina (MArqueE/UFSC)”, aponta Isabela da Silva Muller Guimarães, arqueóloga do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


Material encontrado está no Museu de Arqueologia da Universidade Federal de Santa Catarina (MArqueE/UFSC.
Segundo Isabela, o aviso, dessa vez, soou um pouco diferente. “Ao invés de o Iphan ser chamado para verificar o material encontrado, a coordenação informou ao Museu. Uma postura positiva que mostra o conhecimento da escola em relação ao assunto”, elogia a arqueóloga.
Como é de costume, explica Isabela, suspeita de qualquer achado arqueológico é comunicado diretamente ao Instituto. E a recomendação para pessoas que identificam algum objeto desconhecido é interromper o que está fazendo. Em seguida, é indicado não interferir no local, guardar a localização exata e, se possível, providenciar uma marcação em GPS.
A partir do alerta tanto dos professores como dos alunos e dos engenheiros, os arqueólogos iniciaram os trabalhos de verificação e acabaram desvendando um grande diferencial no local.
Além de ossos humanos, conchas e terra escura, também foram localizados fragmentos de cerâmica. Evidências que levaram a equipe de pesquisadores a classificar o local com um sítio arqueológico do tipo Sambaqui, prioritariamente, com a presença de cerâmica Guarani.
“Um diferencial, primeiro, por achar um sítio arqueológico no Continente, pois a maior parte dos sítios que se escuta falar e que se tem registro, não existe mais. Além disso, temos a cerâmica associada à tradição Tupiguarani, o que não é comum. Sendo assim, ele se torna rico por contemplar diferentes tipos de sítios arqueológicos em um só. E o melhor: por estar preservado, permite novas pesquisas”, celebra Isabela.


Em entrevista à Folha de Coqueiros, arqueóloga Isabela diz que o sítio se diferencia dos demais por reunir diferentes povos.
UM SÍTIO MULTICOMPONENCIAL
De acordo com os vestígios encontrados, significa dizer que pelo menos dois tipos de população deixaram suas marcas no terreno: os sambaquieiros e os Tupi-Guaranis, que chegaram em torno de 500 anos antes dos europeus na costa. “É por isso que o qualificamos como um sítio multicomponencial, fato que desperta o interesse de arqueólogos e de outros pesquisadores, pois congrega diferentes ocupações humanas”, declara Isabela.
“O mais incrível de todo esse processo de verificação é que as crianças fizeram parte do início até o final dos trabalhos. E os materiais que foram retirados daqui – com a ajuda das crianças – estão no Museu de Arqueologia da UFSC”, revela Isabela, acrescentando que, após a remoção, foi efetuada a delimitação exata do sítio por outra equipe de arqueologia.
“Tanto para nós, arqueólogos, como para a comunidade escolar, esses achados são de grande importância, pois são a única forma que temos hoje de conhecer os nossos antepassados. Podemos dizer que trata-se do elo entre nós e o passado, e como essa história se relaciona com a gente e interfere nas nossas vidas”, observa.

PARTICIPAÇÃO DA ESCOLA
Para a arqueóloga, a importância principal da preservação do patrimônio arqueológico é, sem dúvida, o pioneirismo da escola em ter identificado e ter levado a sério o que as crianças achavam no local. “Ter ido em busca de informação, de envolver os alunos no processo e de manter esse espaço preservado, é um grande mérito. E não somente preservado e intocado, mas também por permitir a interação e vivência das crianças, dos profissionais da educação, dos pais e de toda a comunidade ao redor”, coloca.


“É um patrimônio que está vivo ao contrário do que se pregou por muito tempo, um patrimônio estanque, fechado, que ninguém toca, ninguém tem acesso. Que seja divulgado e ao alcance do público”, aconselha Isabela.
A título de ilustração, cabe destacar que as crianças estavam no período de férias, no mês de julho, quando da descoberta do sítio arqueológico.
“Mas quando voltaram às aulas, ficaram encantadas com a notícia e correram para fazer novas escavações e encontrar outros vestígios”, revela a coordenadora Kátia Borges, ao confessar a sua emoção quando foi encontrada a ossada humana. “Logo imaginei que se tratava de um achado arqueológico”, relembra.


Coordenadora da escola, Kátia Borges, revela a emoção de encontrar ossos humanos e compartilha com as crianças.



COMO CUIDAR
Para manter preservado e possibilitar novas pesquisas arqueológicas, o principal cuidado destacado por Isabela é a intervenção física no espaço do sítio arqueológico. “Evitar qualquer tipo de estrutura como sapatas de concreto, fundações e construções para que os impactos sejam mínimos e não destruam os vestígios”, alerta.
SAIBA MAIS
OS SAMBAQUIS
São grandes amontoados de conchas, muitos usados para sepultamentos humanos. E junto deles encontram-se também oferendas: desde peixes, pequenos mamíferos até os próprios ornamentos que as pessoas usavam quando sepultadas. “A partir desses materiais, é possível reconstruir os modos de vida, cultura e ambiente de povos antigos, incluindo ainda a cultura do sepultamento”, destaca Isabela.
Sobre a data específica do sítio encontrado na Escola Praia do Riso, Isabela comenta que, para isso, teria que empregar o método de “Datação por Carbono 14 (*)”, procedimento que depende de material bastante preservado, o que é difícil nas condições ambientais da região.
“Mas, por ser um Sambaqui, sabemos que ele pode ter de mil até cinco mil anos atrás. É um período bastante amplo e faz parte do primeiro povoamento da região de Santa Catarina, do Sul do País”, revela a arqueóloga.
PERFIL ISABELA
Isabela da Silva Muller Guimarães é arqueóloga do Iphan desde 2019, ano em que foram descobertos os materiais da escola. Tem graduação em História e mestrado em Arqueologia. História cursou na Universidade Federal de Santa Catarina, e Arqueologia na Universidade de São Paulo.
O QUE É O IPHAN
O Iphan é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. É uma autarquia federal que cuida da gestão e da fiscalização do patrimônio cultural do país. Seja ele um patrimônio físico, material ou patrimônio imaterial. Por exemplo, a Capoeira é um patrimônio imaterial federal, reconhecido no estado de Santa Catarina. O Iphan tem uma superintendência em cada estado do país, ligadas a Brasília, onde fica a sede.
(*) A datação por carbono-14 é um método científico usado para determinar a idade de materiais orgânicos antigos por meio da medição do decaimento do isótopo radioativo carbono-14.
Fotos: Trento Froes/Divulgação Escola Praia do Riso
Texto: Sibyla Loureiro