Inspiradas na mãe educadora, as irmãs Kátia e Tânia fundaram, em 1983, a Escola Praia do Riso, instituição especializada na Educação Infantil e no Ensino Fundamental de 1° a 5° ano. Munidas de uma proposta desafiadora, elas encontraram numa grande chácara, à beira-mar, o lugar perfeito para iniciar a trajetória.
Hoje, 43 anos depois, o projeto pedagógico segue valorizando a infância e formando cidadãos comprometidos com a preservação da natureza e com a construção de uma identidade coletiva.
Em entrevista à jornalista Sibyla Loureiro, Kátia Borges, que continua na coordenação da escola, conta um pouco da história desse espaço de resistência integrado ao bairro de Coqueiros. Confira abaixo:

“Fomos buscar um lugar vivo, onde a criança pudesse realmente vivenciar as experiências tão importantes que ela precisa ter para o seu desenvolvimento. A convivência, a brincadeira, o contato com a natureza”, aponta Kátia Borges (à direita).
Em 1983, você, sua irmã Tânia, e sua mãe resolveram criar a Escola Alternativa, que foi o primeiro nome. O que levou vocês a tomar essa decisão? E o que vocês queriam fazer de diferente das escolas que já conheciam?
Minha mãe era uma professora apaixonada pela educação. E foi uma grande inspiração pra mim. Desde criança, acompanhava o planejamento, a produção de materiais que ela levava para os alunos, e a ideia não só da importância, mas do prazer de ensinar. Mas não foi a minha primeira escolha profissional. Foi uma consequência. Chegar à educação foi um caminho percorrido através da psicologia, minha formação inicial.
Na época em que fundamos a escola, que se chamou, primeiro, Escola Alternativa, ela já estava aposentada. A constatação de que a escola que existia, a escola que se praticava, a escola que eu vivenciei, que a minha irmã também e os meus filhos passaram a frequentar, era uma escola que não era feita para criança. E fomos buscar isso: transformar a escola num lugar vivo, num lugar onde a criança pudesse realmente vivenciar as experiências tão importantes que ela precisa ter para o seu desenvolvimento. A convivência, a brincadeira, o contato com a natureza. E foi aí que começamos.
A Praia do Riso construiu seu projeto pedagógico a partir de diferentes referências. Como tu percebes que essas referências contribuíram para construir o modo de ensinar e aprender da escola? Que referências são essas, Kátia?
Algumas referências são da psicologia. Jean Piaget é um exemplo. Ele foi um grande pesquisador do desenvolvimento infantil e foi ele o primeiro pensador que nós estudamos. Ele coloca a criança como protagonista, um entendimento que já fazia parte da nossa proposta, que se consolida na teoria a partir de outros pensadores.
O Piaget como psicólogo, pesquisador da epistemologia genética que nos ensinou como as crianças se relacionam com o conhecimento, com o mundo, a partir do estar no mundo e fazer, da experiência direta de contato com os diferentes seres, sociais e físicos também, do meio em que vivem.
O Paulo Freire foi uma referência também da minha faculdade, a PUC, de São Paulo. E A Educação como Prática da Liberdade foi um dos livros que a gente leu também. A experiência dele como educador era revolucionária, inspiradora, uma experiência exitosa de alfabetização de adultos através do que as pessoas vivenciavam. Era da própria realidade que se tirava o conteúdo. E é mais ou menos como a gente foi fazendo com as crianças.
Outros autores vieram depois como Emília Ferreiro e Constance Kamii, colaboradoras do Jean Piaget. Kamii se dedicou ao conhecimento matemático, e a Emília Ferreiro à construção da escrita e da leitura.
E naquele momento havia um movimento que nós considerávamos e consideramos, até hoje, que chega a ser uma violência com o processo de aprender. Trata-se da lógica do mercado, ou seja, chegaram às escolas as apostilas que invadiram a experiência da educação infantil. Na época, ainda o jardim de infância que não tinha o olhar para ficar preenchendo folha de apostila durante uma manhã, uma tarde inteira.
Com isso, a criança deixava de experimentar as coisas que eram realmente significativas. E as escolas, infelizmente, aderiram com facilidade a essa lógica que acabou virando um grande comércio. E foram as referências de vários autores, como os já citados, que abriram o caminho para trabalhar de outra forma.
O trabalho por projetos é uma característica importante da proposta pedagógica da escola. E como acontece o nascimento de um projeto a partir das perguntas e dos interesses de uma turma?
Têm dois movimentos. Um, bem no começo do ano, quando a gente começa o trabalho com as crianças. Durante um período de duas a três semanas, planejamos o dia a dia para descobrir como as crianças brincam, o que chama mais atenção.
Na educação infantil, os projetos são inspirados também na literatura. Na contação de histórias, nas brincadeiras, na exploração do espaço, as crianças vão mostrando, através da sua curiosidade, e é dessas experiências que a professora planeja qual caminho a gente pode seguir com elas. Há um grupo que se interessa pelas minhocas, pelas plantinhas que estão crescendo, o outro está na fantasia e eles organizam brincadeiras em torno desses temas.
Assim, vão nos dando pistas do que pode vir a ser um projeto. E aí, vamos identificando e construindo uma ideia mais inteira. As salas são sempre muito dinâmicas. Uma iniciativa que é própria da nossa escola é não começar o ano com a sala decorada. A sala tem os móveis, os materiais que vamos usar, mas tudo que vai para a parede é construído com as crianças.
Não tem nada de estereotipado, como desenho pronto, por exemplo. Até porque a educação tem a ver com essa experiência do fazer, do se expressar. Não com aquela casinha desenhada pronta, nem com aquela árvore padronizada que vem nos livros. A criança tem a possibilidade de desenhar a própria árvore, a sua árvore.
Na Praia do Riso, o erro sempre foi compreendido como parte do processo de construção do conhecimento. Como você percebe esse processo na trajetória da escola?
Aqui na escola, faz-se um exercício contínuo de desconstrução, de uma ideia do compromisso que o ser humano se impõe com o acerto. Eu tenho que acertar, eu tenho que responder corretamente. Entender o erro como parte relevante do processo de aprendizagem é uma mudança de paradigma. Ensinamos para as crianças que o processo é muito mais importante do que o resultado. Porque é no processo que se aprende. O resultado pode ser, inclusive, acidental.
A escola tem, tradicionalmente, uma prática de destacar para a criança, como fracasso, os erros que acontecem. Se ela tiver medo de errar, ela vai fazer menos. A gente observa essa prática em crianças que vêm transferidas de outras escolas, que elas não se arriscam. O ser humano só construiu tudo que a gente tem, todo o aparato tecnológico, da ciência, da medicina, errando. Todas as pessoas que nos antecederam, os grandes pesquisadores, eles aprenderam a partir do erro.
O erro é uma oportunidade de aprendizagem. E a criança lidar com leveza, com o erro, não é fácil, porque isso está muito impregnado até em casa. Por exemplo, a questão das tarefas de casa. Nas nossas reuniões, pedimos às famílias para deixar as crianças trazerem as dúvidas para a sala de aula. Isso é a matéria-prima do nosso trabalho.
Ao contrário de assinalar erros, mantemos uma conversa com a criança a respeito e pedimos para ela olhar o que não está correto. E assim, fazemos a revisão, em grupo, que é uma prática muito especial da escola: compartilhar, comparar respostas, argumentar. É uma troca. É aprender com o outro. E as crianças se constituem como seres mais seguros para enfrentar a vida adulta.

“O erro é uma oportunidade de aprendizagem. Se a criança tiver medo de errar, ela vai fazer menos, se arriscar menos”.
E quando a criança chega ao ensino fundamental, aumentam as exigências em relação aos conhecimentos sistematizados? Como tu percebes que a Praia do Riso consegue conciliar esse compromisso com o conhecimento, com a curiosidade, autonomia e o prazer de aprender?
A gente tem uma passagem importante da educação infantil para o fundamental. Com a criança pequena, é um movimento mais lúdico, é a fantasia. No ensino fundamental, os objetivos de aprendizagem são diferentes.Temos diretrizes curriculares nacionais, que é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que todas as crianças, todos os estudantes brasileiros devem ter oportunidade de aprender. O que fizemos no trabalho com os projetos é deixar isso ser mais significativo.
Temos para cada grupo, a partir do primeiro ano, um “desenho”, que nós chamamos de rede, que contém o eixo temático do trabalho. No primeiro ano, a literatura continua sendo um fio condutor do eixo temático que é Identidade e vida de grupo. A partir daí, a matemática entra muito pelo jogo, pelos registros do cotidiano, calendário, lanche, pontuação nos jogos, as coisas todas do dia a dia onde a matemática se encontra. E não é somente fazer atividades, não é apenas elaborar atividades tendo isso como contexto.
É perceber a matemática no momento em que ela está acontecendo, na situação de aprendizagem que está ali colocada. E é um trabalho que exige dos professores bastante conhecimento, uma formação bem consistente para que eles possam também ser pesquisadores, entender como as crianças aprendem o tempo todo.
A partir do segundo ano, tem uma estrutura, um trabalho mais sistematizado, relacionado aos conteúdos de ciências da natureza e ciências humanas previstos para cada etapa. Por exemplo, o eixo do trabalho é o tempo e as transformações. Então, vamos para o tempo cronológico, para os ciclos, os tempos biológicos da vida, dos animais, das plantas, as estações do ano. Tem várias vertentes e também tem os tempos sociais, o tempo do trabalho, o tempo da escola.
Organizamos, assim, a participação das crianças, porque nessa leitura do grupo que as professoras fazem no início do ano, elas também identificam por onde elas podem começar aquela caminhada. Um grupo começa estudando os astros, o dia e a noite, o outro começa pelas plantas e vai por outro caminho.
Tem uma autoria, da professora e de cada grupo, que permeia todo esse trabalho. O interesse, a curiosidade das crianças e também da professora.Os professores têm que ter um encantamento. Não se consegue dar uma boa aula se a gente não se encantar com o aprender.
O brincar ocupa um lugar central no projeto pedagógico, na educação infantil, no ensino fundamental e no Integral. Como tu vês o equilíbrio do brincar e o aprender?
O brincar é a atividade principal da criança e, por isso, ocupa um lugar central no projeto pedagógico da educação infantil. Entendemos o brincar como um direito. E no Ensino Fundamental ele está implicado, inclusive, no trabalho de sistematização do conhecimento.
Quando se propõe uma leitura e o compartilhar uma leitura, quando a gente propõe uma pesquisa, sempre entram elementos do brincar também na sistematização, porque entra o jogo, entra o se vestir, por exemplo, de pesquisador e elementos cenográficos daquela situação que ela vai apresentar.
Então, entra muito ainda no fazer pedagógico, mesmo quando tem um conteúdo de ciências ou outro presente, ele possibilita ser trabalhado como um jogo, como uma brincadeira. Mas tem momentos também em que é o conteúdo, é o exercício, é a folha de atividades. Não é o tempo todo brincadeira. É o equilíbrio.
Há momentos que permitem mais o aspecto lúdico, outros não. Se vai aprender uma resolução de problema, já não é uma brincadeira. É o raciocínio que está envolvido. O que é interessante para a criança é como é apresentado o conteúdo, como um desafio.
Não uma atividade pronta. Não é um trabalho para entregar para a professora e ela dar uma nota. Nunca é isso. Sempre tem uma outra finalidade por trás.
Quando tu pensas no projeto pedagógico da escola, como tu entendes o lugar da inclusão?
Na perspectiva dos direitos da criança. Esse é o ponto. Quando propusemos, na década de 1980, uma escola que respeite a criança, que respeite esse tempo de vida tão importante da formação do ser humano, que é a infância, isso se destina ou pressupõe que todas as crianças têm esses direitos. Então, a inclusão está presente na escola na sua concepção de infância e na sua concepção de direitos humanos e do direito das crianças.
E a inclusão não se refere somente às crianças neurodivergentes. Ela se refere às crianças que têm dificuldade de aprendizagem, às crianças que não correspondem aos padrões ou não têm acesso às mesmas oportunidades que outras têm. Então, trabalhar com a diferença, trabalhar com a diversidade é uma compreensão, uma concepção que está presente no projeto da escola.
Não aconteceu agora. A escola já trabalhava, por exemplo, com crianças neurodivergentes desde o seu primeiro ano. No momento histórico da educação (*) em que não existiam escolas inclusivas. Havia uma segregação. Existiam escolas especiais e as crianças atípicas estavam matriculadas em instituições que recebiam somente essas crianças. Então, elas não tinham a oportunidade de conviver com outras
Conviver, ter experiências de troca, de amizade, de carinho, de aprendizagem com crianças que não tinham a mesma condição que ela. E vice-versa, as crianças atípicas poderem aprender que na diversidade humana, algumas pessoas não se desenvolvem da mesma forma. E que a gente precisa adequar as nossas ações à condição daquela pessoa.
Tivemos muitas crianças neurodivergentes ao longo desse tempo. Hoje adultos, alguns casados, outros profissionais, outras não diagnosticadas.

“Trabalhar com a diferença, com a diversidade é uma compreensão, uma concepção que está presente no projeto da escola”.
A Praia do Riso está inserida aqui nesse espaço que a gente está vendo, maravilhoso, que reúne tantas camadas de memória, a Casa Rosa, as árvores, o sítio arqueológico. Para ti, o que significa educar as crianças num lugar que também carrega um patrimônio histórico natural e arqueológico?
A sensação de pertencimento, de responsabilidade que temos com esse passado que nos legou a oportunidade de estar num espaço como esse e de poder nos conscientizar, a cada um de nós que está aqui dentro e as próximas gerações, do quanto a gente pode fazer para preservar tudo isso, do quanto a gente precisa fazer e do quanto é importante que a gente faça.
É um compromisso com o passado. Ao mesmo tempo, é um elo entre o passado mais remoto da população que viveu aqui na pré-história de Florianópolis. E nossa responsabilidade é preservar para quem vem depois de nós.
E quando vocês entraram aqui pela primeira vez, vocês já sentiram tudo isso? Sentiu que era aqui que eu vou ficar?
Eu conheci esse lugar em uma festa de aniversário de criança, quando trouxe meu filho mais velho pra participar. Morava aqui uma família, parente da dona Ina, que era a proprietária da casa. Tinha uma plantação grande de milho, uma horta e um pomar, a casa principal, uma garagem e a casinha do caseiro.
Quando começamos a procurar um local para abrir a escola, eu lembrei desse lugar, principalmente porque a gente queria um local que tivesse chão de terra para pisar, árvores, espaço para correr, fruta no pé. Por acaso, a casa estava desocupada. Foi uma sorte. Um grande achado.
Depois de mais de quatro décadas, tanta coisa mudou na educação, na sociedade e na própria escola. Quando tu olhas para essa história, o que tu sentes que nunca se perdeu e continua sendo essencial na identidade da Praia do Riso?
A compreensão de que a criança é protagonista do processo de aprendizagem, o compromisso com a infância, o respeito à diversidade, a defesa enfática da democracia, a consciência de que é no trabalho coletivo que a gente se constitui como pessoa e como projeto e como sociedade.
Então, são coisas que, com todas as mudanças, algumas pessoas que nos conhecem há bastante tempo, conhecem o trabalho da escola, os professores, dizem que a gente é um espaço de resistência, porque na época que fundamos a escola existiam outras experiências, outras tentativas, e a maioria delas não vingou, não permaneceu, foi se perdendo no caminho, não conseguiu dar continuidade.
E nós estamos aqui, há 43 anos, preservando tudo. O projeto, o espaço, a educação. É uma defesa muito forte, muito convicta do que a gente acredita como educação. E é um exercício diário. A sofisticação do nosso trabalho está nas relações.

“Estamos aqui há 43 anos preservando tudo: o projeto, o local, a educação. Somos um espaço de resistência”.
(*) No Brasil, o processo de obrigatoriedade da inclusão escolar aconteceu em etapas, mas as escolas regulares passaram a ser juridicamente obrigadas a aceitar a matrícula de alunos com deficiência a partir de 1989, com a promulgação da Lei nº 7.853/1989. Essa lei tornou crime recusar ou cancelar a matrícula de um estudante devido à sua deficiência