Escola Praia do Riso mantém no projeto pedagógico atividades que garantem conteúdo e direito das crianças de brincar. Em entrevista à Folha, a professora Cláudia Duwe mostra como vencer o desafio.

O lúdico, muitas vezes, é considerado uma atividade secundária dentro do ambiente escolar. A prioridade sempre recai em conteúdos voltados a muitos saberes: o aluno tem que aprender a ler e a escrever desde cedo, aprender uma segunda língua o mais cedo possível e dominar a tecnologia ainda pequeno. E onde fica a criança e o brincar no meio de tantos compromissos?
Para a Escola Praia do Riso, o brincar faz parte do projeto pedagógico e, portanto, do planejamento escolar de forma equilibrada e intencional. “Há 42 anos, a escola pratica um projeto pautado em alguns princípios. O princípio da participação, tanto das famílias como dos profissionais da educação e das crianças, que normalmente é um grupo deixado à parte”, aponta a professora Cláudia Duwe, do 5º ano.
“Todos os sujeitos têm voz e essa voz não necessariamente vai ser atendida, mas ela deve ser escutada. Sem esquecer, sem dúvida, o princípio do resgate da infância”, completa a professora.
Sendo assim, embora mantenha as disciplinas exigidas no currículo de uma escola de ensino regular, o olhar diante dos alunos se diferencia por conta do respeito às suas necessidades. Um bom exemplo é o cuidado em não reproduzir modelos de adulto, como a obrigação do uso do uniforme e a obrigação de entrar em filas para fazer determinadas tarefas. São movimentos, diz a professora, distantes da necessidade do corpo da criança.
“Crianças têm um corpo em movimento constante. Pesquisas em todo o mundo, principalmente nos países ocidentais mais desenvolvidos, mostram que a criança em atividade aprende muito melhor do que uma criança estática, parada, só no lugar de aluno. Então, isso é fundamental para a Escola”, atesta Cláudia.


DESAFIO
Unir o brincar e o aprender de forma equilibrada e estratégica é o grande desafio da escola, já que a formação dos profissionais está direcionada para o ensino de conteúdos. De acordo com Cláudia, para enfrentar o desafio, é preciso planejar ações de maneira que as crianças estejam contempladas, mas que também estejam em constante aprendizagem. “Esse é o nosso lugar de escola regular de ensino”, explica.
Como professora de 5º ano, Cláudia destaca o seu compromisso de ensinar matérias de Matemática, Língua Portuguesa, Geografia, História e Ciências para crianças de 10 e 11 anos. Mas costuma usar várias formas para conduzir as disciplinas. Como exemplo, cita o corpo humano que é um dos conteúdos de Ciências.
Para envolver os alunos na matéria e não tornar o conteúdo maçante, Cláudia lembra de uma situação na qual sugeriu entrevistas com a família. Como tema, as cicatrizes que cada um carrega no corpo por histórias vividas na infância ou em outros momentos. As crianças, então, se tornam repórteres, formulam as perguntas e, no final, criam um texto e transformam em notícia.
“Se eu fosse usar um livro para dizer: agora vamos estudar texto literário, simplesmente isso perderia o encanto. Como eles são os repórteres da ação, fica muito diferente. E contam histórias belíssimas das cicatrizes das suas famílias, de quando eram crianças”, comenta.


Com certeza, tal assunto acaba aproximando a relação familiar, já que as crianças escutam fatos que pais e mães possivelmente esqueceram de relatar: que pularam uma cerca de arame farpado para fugir da avó, por exemplo, entre outras tantas histórias. “Então, todos os conteúdos trazem em si, potencialmente, uma aproximação com as crianças, desde que a gente, no planejamento, intencione fazer”, coloca Cláudia.
CORAÇÃO DA ESCOLA
E como estímulo à imaginação, ao aprendizado e ao desenvolvimento das crianças, está o pátio da escola. Considerado uma extensão das salas de aula, o pátio é um aliado do planejamento pedagógico. Ali, as crianças brincam, sobem em árvores, tocam o pé na terra, brincam com água. E tudo isso estimula o cérebro e ativa nas crianças outras vivências que a chamada vida moderna tem impedido de acontecer. Já temos muitas pesquisas, em nível mundial, afirmando que a falta de tais vivências prejudica o desenvolvimento integral das crianças.


“Muitas das nossas crianças, hoje, mesmo aqui em Florianópolis, não colocam o pé no chão. Estão constantemente no piso com assoalho ou com calçado ou em grama sintética. Então, a gente tem aqui no chão da escola, literalmente, toda essa condição de fazer essas crianças voltarem àquilo que é quase ancestral da nossa espécie”, comenta Cláudia.
Um bom exemplo, citado pela professora, é uma conclusão feita por pesquisadores estadunidenses que mostra que o envolvimento das crianças com a aprendizagem é maior e melhor quando elas têm a oportunidade de brincar em contato com a natureza.
Para tanto, uma escola de lá organizou no seu currículo diário um abraço a uma árvore, uma atitude extremamente simples, mas quando se pensa no contexto de algumas cidades, encontrar uma árvore já não é tão fácil. “Aí, quando eu me remeto ao pátio da Praia do Riso e lendo aquela reportagem, pensei: que pena deles, porque nós temos todas elas aqui”, ressalta Cláudia.
NOVOS BRINQUEDOS
No começo do ano letivo, o pátio da escola ganhou nova modelagem, um desejo das famílias de querer oferecer mais brincadeiras. Então a criançada, quando chegou de férias, encontrou o espaço mais convidativo. Tem corda, tem madeira, mas não tem tanto plástico, que é um princípio importante da Escola.


Planejar os novos brinquedos exigiu muitos desafios, aponta Cláudia, pois, segundo ela, vive-se, hoje, uma dualidade de proteção excessiva das crianças. “Quando trouxeram ideias de brinquedos, algumas professoras já diziam isso aí é perigoso. Não, isso aí é muito alto. Uma outra família dizia, será que isso aí é seguro?”.
Mas, para a escola, é necessário colocar as crianças no chamado risco calculado. “Se não aprender a sentir medo e controle do seu próprio medo quando criança, vai ter que viver isso em parque temático”, diz, ao completar:
“Então, a gente entende que as crianças precisam tirar os dois pezinhos do chão, precisam se enxergar diante de desafios, mas com segurança, gradativamente, respeitando as idades. É esse tipo de escola que temos aqui, com esse pátio ampliado, com brinquedos projetados, com profissionais em constante formação para que não sejamos adultos que atendem demandas, mas sim que provoquemos novas respostas para novos desafios. E o melhor: em meio à natureza”, avalia Cláudia.

Editora da Folha de Coqueiros, jornalista Sibyla Loureiro, e professora Cláudia Duwe, do 5º ano.
Fotos: Trento Froes
Texto: Sibyla Loureiro
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