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“Precisamos restaurar a natureza da cidade, os parques e as áreas verdes”

23 AGO 2021


ENTREVISTA
Professor Francisco Antônio Carneiro Ferreira

Projeto de extensão do curso de Arquitetura e Urbanismo
a UFSC contempla ampliação do Parque de Coqueiros

Inspirados na reinauguração da Ponte Hercílio Luz, em dezembro de 2019, professores da UFSC resolveram apostar num projeto de expansão do Parque de Coqueiros. Trata-se do projeto Coqueiros- Luz, iniciativa do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina, que pretende estimular, entre outras ações, melhorias ambientais ao Parque de Coqueiros e ao seu entorno.

Entre eles, proteger as bordas d’água e criar novos espaços para pedestres e ciclistas. A proposta é implantar um passeio – aproveitando o potencial cênico - desde a Praça da Ponta da Ilhota até a cabeceira continental da Ponte Hercílio Luz e, na sequência, conectar o Parque da Luz.

“O que nos motivou a pensar no projeto foi justamente a reabertura da Ponte Hercílio Luz, que ficou apagada da memória durante muito tempo. Planejamos, então, resgatar as áreas adjacentes e abandonadas, especialmente pela beleza paisagística em frente ao mar. Esse é o DNA do nosso trabalho”, aponta o professor Francisco Antônio Carneiro Ferreira, coordenador do projeto.

Em entrevista à Folha de Coqueiros, o professor diz que as ideias estão sendo trabalhadas - em reuniões virtuais - com base nas informações repassadas pela Associação de Coqueiros, Associação Amigos do Parque da Luz, Conselho de Desenvolvimento do Continente (CODECON), e Serviço do Patrimônio da União (SPU). E que a primeira etapa do projeto é buscar a recuperação da balneabilidade das praias, entendo-a como pano de fundo para qualquer iniciativa de revitalização da borda d’água .

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Folha de Coqueiros - O que é o Projeto Coqueiros- Luz?

Professor Francisco - É uma atividade de extensão da UFSC, cujo objetivo é atender às demandas da Associação Pró-Coqueiros, da Rede de ONGs da Mata Atlântica e da Associação Amigos do Parque da Luz, com vistas a adequar as infraestruturas ambientais do Parque de Coqueiros e do Parque da Luz, e integrá-las às da cidade.

No caso do Parque de Coqueiros, em uma primeira etapa, será ampliar o seu território incorporando parte dos terrenos de marinha, junto à borda d’água, até a cabeceira continental da Ponte Hercílio Luz.

Precisamos restaurar a natureza da cidade, conectando os parques às áreas verdes. Esta tarefa têm que ser uma prioridade dos governos Municipal, Estadual e da União. São necessidades mais urgentes, como a mobilidade e a habitação.

É preciso promover uma transição modal urgente, a partir da desconstrução do sistema automóvel. Estimulando o tripé pedestre-ciclista-passageiro do transporte coletivo (terrestre e marítimo). Temos propostas neste sentido a serem desenvolvidas pelo Projeto Coqueiros-Luz.

FC - O projeto faz parte de qual curso da UFSC?

Francisco- Arquitetura e Urbanismo, com o apoio da Engenharia da Mobilidade e Engenharia Sanitária e Ambiental.

FC- Por que foi escolhido o Parque de Coqueiros?

Francisco - A reinauguração da Ponte Hercilio Luz ativou a memória da cidade para a Ponte e para as áreas adjacentes, como o Parque de Coqueiros. Coqueiros é um importante ponto de ancoragem desta memória. Para ativá-la é preciso aprender a ser resiliente, o que significa se antecipar às pressões da cidade sobre as áreas mais atraentes do bairro e se organizar para lidar com soluções criativas, viáveis e úteis, com a participação do cidadão.

Trata-se de uma adaptação à nova realidade que pode ser construída com intervenção de baixo custo e grande impacto socioambiental positivo.

FC- Que melhorias prevê o projeto?

Francisco - Por exemplo: O parque de Coqueiros tornou-se muito pequeno, se continuar recebendo as pressões crescentes que recebe, vai se degradar rapidamente.

É preciso ampliá-lo aproveitando ao máximo a paisagem, a partir do aproveitamento das bordas d’agua e da lamina d’agua, com o apoio do Serviço do Patrimônio da União, que detém o domínio destas áreas.

Então, a proposta é integrar o Parque aos espaços públicos do entorno: Praça da Ponta do Ataliba; Manguezal; Campos do IFSC; cabeceiras das pontes.

FC - Elas estão ligadas a ações ambientais?

Francisco - Sim. Para isso, precisamos resolver o problema prioritário, da falta de balneabilidade. Ou seja, adotar soluções de saneamento de baixo custo, que corrijam os problemas causados pelas ligações irregulares na rede pluvial dos sistemas individuais, mas também no sistema da Casan.

A Casan precisa adotar solução para as estações elevatórias (não há manutenção e fiscalização), pois jogam esgoto in natura ao mar, quando ocorre extravasamento pela rede. É preciso fiscalização em ambos os sistemas. O programa Se Liga na Rede é um bom caminho, mas pode ser aprimorado. 

FC- O projeto prevê alguma solução?

Francisco - Dispomos de uma solução eficiente e de baixo custo para este problema do saneamento, que associa três cenários, um deles é: tanques de retenção e tratamento descentralizados por rais, instalados junto às estações elevatórias da região. Estamos propondo fazer um projeto piloto em uma das elevatórias, com o apoio da Casan.

FC - Como será desenvolvido o projeto? Com ajuda externa de outros órgãos e também pesquisa?

Francisco - A resiliência que me refiro está relacionada também à coexistência e à tolerância política-administrativa para a abordagem de um problema que é possível oferecer uma solução técnica eficiente, desde que participativa. Neste sentido o Conselho de Desenvolvimento do Continente (Codecon) e a Pró Coqueiros têm um potencial enorme a ser mobilizado, aliados à competência técnica da UFSC e da União, podendo colher resultados no médio e longo prazo.

A cidade ao longo de sua história tem sido o resultado de muitas decisões individuais, dispersas e sem coerência técnica, especialmente na gestão das infraestruturas púbilcas de saneamento, de mobilidade e de conservação socioambiental.

FC- A ideia é colocar em prática com parceria pública/privada ou disponibilizar à Prefeitura de Florianópolis?

Francisco - Precisamos de uma mudança cultural, que é possível, em que cada um entenda o seu engajamento na solução. Estou convencido que a mudança não será dirigida somente pela Prefeitura Municipal de Florianópolis ou por indivíduos-políticos e organizações centralizadas. Os planos devem ser lançados com debate prévio na população.

Além disso, percebo que há falta de coordenação administrativa. A política de gestão do espaço não é integrada (varias ações pontuais desconexas), e não são contínuas ao longo do tempo. O anúncio político de uma ação nem sempre é seguido de medidas operacionais adequadas.

FC- Qual a expectativa de conclusão?

Francisco – O projeto possui um cronograma, que prevê, até o final do ano de 2021, a apresentação e debate do diagnostico, bem como das soluções preliminares. Posteriormente, se houver interesse e apoio dos entes públicos e das associações de moradores, poderemos partir para o detalhamento do projeto.

Texto: Sibyla Loureiro
Fotos: Divulgação
Capa do Projeto: Professor Francisco Antônio Carneiro

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Equipe Técnica*

Professores: (1) Francisco A. Carneiro Ferreira (Departamento de Arquitetura e Urbanismo - UFSC), (2) Antônio Otaviano Dourado (Departamento de Engenharias da Mobilidade - UFSC),  (3) João de Deus Medeiros (Departamento de Botânica - UFSC)

Acadêmicos: (5) Euclides Edson Martins (Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental - UFSC),  (6) Vitor Carlos Silva Nicolau

(Curso de Arquitetura e Urbanismo - UFSC)

Convidada (os): (4) Luiz Se´rgio Philippi (Engenheiro, especialista em Saneamento Ambiental Descentralizado),  (7) Marina Christofidis (Bióloga, especialista em Gerenciamento Costeiro – SPU), (10)  Engenheiro Ricardo Arcari (Diretor da Socio Ambiental Consultores Associados),

Membro externo: (8) Jornalilsta Sibyla Loureiro Goulart (Presidente da Associação Pró-Coqueiros ), (9) Humberto Luiz Olsen (Odontólogo, Associação dos Amigos do Parque da Luz),  (11) Dalton Malucelli Jr. (Engenheiro, coordenador do Conselho de Desenvolvimento do Continente - CODECON).

Apoio: Associação Pró -Coqueiros, Associação Amigos do Parque da Luz, Conselho de Desenvolvimento do Continente,  Direção do CTC – UFSC, Rede de ONGs da Mata Atlântica.

Realização: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Ecologia e Desenho Urbano - www.gipedu.ufsc.br

*Equipe numerada conforme Capa do Projeto (foto abaixo)


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