Escola Praia do Riso adota sistema de reciclagem há três anos e utiliza o adubo para manter uma agrofloresta, uma horta e árvores no pátio.

Crianças aprendem o processo de compostagem depois da separação do lixo orgânico no lanche coletivo e outros atividades.
Quando chega a hora do lanche, as crianças já sabem o que fazer: separar as cascas das frutas, os restos de pão, de bolachas e as demais sobras de resíduos orgânicos. Tudo é depositado num baldinho e o ajudante do dia leva para um residuário em frente à cozinha, como se fosse um Ponto de Entrega Voluntária (PEV) de resíduos.
A rotina faz parte do lanche coletivo dos alunos da Escola Praia do Riso e envolve, diariamente, todas as turmas da instituição de ensino. “Cada sala de aula tem o seu baldinho que é colocado nas mesas espalhadas no pátio. Dali, vão para as bombonas e, a cada dois dias, recolho tudo e levopara a área de compostagem”, diz a educadora ambiental, Gabriela Goulart.
Coordenadora do Projeto de Compostagem de Resíduos da escola, ela explica que o processo começa na separação correta dos resíduos. “Sem isso, não temos uma boa compostagem”, aponta Gabriela, ao destacar que as crianças já praticavam a atividade quando ela iniciou o projeto, há três anos.
“Mas, a partir da compostagem,aprimoramos o sistema com novas bombonas e plaquinhas distribuídas – em lugares estratégicos – informando o que é orgânico e o que é reciclado. A separação ficou melhor e começamos a identificar, também, alguns tipos de resíduos como o microplástico, que tem bastante no pátio por conta do vento”, revela Gabriela.
“Então, com a compostagem, a gente passou, eu diria, a ter um olhar mais afiado para todos os tipos de resíduos que entram aqui na nossa escola”, assegura Gabi, como é carinhosamente chamada.



19 TONELADAS DESVIADAS DO ATERRO
De acordo com a educadora ambiental, o manejo utilizado no processo é de pesagem de todos os resíduos para registrar, de fato, a quantidade desviada do aterro sanitário. Só para exemplificar, em três anos foram mais de 19 toneladas que deixaram de ser depositadas no aterro para virar adubo na escola. “É a prova de que projetos de educação ambiental são possíveis e necessários nesses espaços”, acentua.
O adubo produzido, além de ser distribuído às famílias, é espalhado ao redor das árvores e em dois novos espaços criados na escola: a agrofloresta e a horta. “É o momento que as crianças mais gostam, pois mostra o resultado do trabalho em que todos acabam se envolvendo. Não só as crianças, mas também os associados e os pais que estão sempre participando do processo de compostagem”, comenta.
“Como exemplo da importância do projeto, cito o nosso pé de caju. Há mais de 10 anos, ele não dava nenhuma fruta. Depois da adubação, começou a florir e ano passado produziu uma grande colheita de caju. E se antes a escola comprava adubo para manter as plantas, agora não precisa mais”, comemora Gabi.

“Projetos de educação ambiental são possíveis e necessários nas escolas”, diz Gabriela Goulart em entrevista à jornalista Sibyla Loureiro, ao mostrar a diversidade da agrofloresta graças à adubação.
CONHECENDO A NATUREZA
Para Gabriela, o envolvimento das crianças nos projetos é mais do que ter contato com a natureza, conexão que elas já têm naturalmente quando ingressam na escola.
“Eu percebo que as crianças começam a ter intimidade com a natureza. Saber que nem todo dia é dia de colher, saber que tem que esperar, saber que a gente precisa cuidar. Então esse tipo de ensinamento, eu acredito muito que esses espaços conseguem oferecer para as crianças. Já tive pais que vieram me dizer: “Agora lá em casa a gente não pode mais colocar a casca de fruta no lixeiro, Gabi”. Eu falei: “É isso aí, objetivo alcançado”.
Acompanhar o ritmo da natureza também se integrou ao aprendizado em sala de aula. Quando as crianças visitam a agrofloresta, a horta e a compostagem é como se elas estivessem vivendo, na prática, o que está no livro. “Por exemplo, quando as turmas estão estudando o ciclo da vida dos animais, a gente não precisa mais sair e correr atrás de lagarta. Vamos na agrofloresta e conseguimos achar o ovo, a lagarta, a borboleta, a joaninha. Então, esses espaços são verdadeiros professores”, atesta Gabi.
O mesmo acontece quando estão estudando o ciclo da vida. É na composteira que as crianças vão presenciar o trabalho dos fungos, na decomposição. “Os projetos estão totalmente ligados com o que as crianças estão aprendendo dentro de sala de aula. Virou uma experiência pedagógica”, acrescenta Gabi.


Os espaços são verdadeiros professores já que as crianças vivenciam, na prática, o que estudam nos livros.
AGROFLORESTA E HORTA
Na agrofloresta, existem mais de seis espécies de árvores frutíferas nativas: cereja-do-rio-grande, que é a única cerejeira que tem no Brasil e é nativa da Mata Atlântica; grumixama; jabuticabeira; pé de mamão; araçá; milho guarani; cambuci, fruta também nativa da Mata Atlântica.
“Plantamos ainda a guabiroba, a pedido da Kátia, coordenadora da Escola. Ela disse que, quando era criança, tinha muito pé de guabiroba e que, agora, não se vê mais”, diz Gabriela.
Além das árvores, que formam a base do espaço, tem uma vegetação mais baixa que são os chás e temperos: erva-baleeira, que é nativa de restinga, alecrim, boldo, hortelã, tomilho, capuchinha. “Agrofloresta está sempre em transformação. Trabalhamos muito com a sazonalidade e diversidade para as crianças conhecerem um pouco de cada planta. Quando é época de determinado vegetal, de algum legume, a gente cultiva”, esclarece.
Já na horta, é onde ficam as plantas de ciclo mais curto. Ali, são cultivados couve, girassol, tomate, morango. “Como é um projeto de um período menor, as crianças podem acompanhar da semente até a colheita. Já fizemos suco verde com a couve que a gente plantou, experimentamos as sementes de girassol, além de outros legumes e verduras”, conta Gabriela.



Na horta, a criançada acompanha o crescimento das plantas, da semente até a colheita. Saber cuidar, observar e ter paciência.
SUSTENTABILIDADE
De acordo com a educadora ambiental, a agrofloresta nasceu de um projeto de ampliação da compostagem. Na verdade, tudo começou a partir da proposta de melhorar o calor, provocado pelo sol, de uma parede externa da escola. A solução encontrada, de forma sustentável, foi plantar uma árvore para criar um microclima.
Hoje, no entanto, ela não está apenas servindo para refrescar a escola, mas também atuando no aprendizado das crianças. “O ninho de passarinho feito na cerejeira, os animais diferentes que vêm visitar o local, as sementes deixadas por eles. Tudo revela um verdadeiro tesouro da biodiversidade”, constata Gabriela, ao mostrar um pequeno pepino que brotou ali sem ninguém plantar.
“Ficamos felizes quando aparece uma planta diferente, e, principalmente, porque as crianças acompanham todo o processo de germinação. A cada visita na agrofloresta ou na horta, é uma surpresa: sempre tem algo brotando, sempre tem um bicho diferente”, completa Gabi.
Para Gabriela, trabalhar com educação ambiental mostra, principalmente, que a alimentação não começa no prato. “O importante é que as crianças percebam que tudo que vem da natureza tem um antes, um cultivo, um tempo e alguém que trabalha até que o alimento chegue no nosso prato. É olhar uma alface nascendo e entender, também, o valor da produção orgânica”, acredita.
Um bom exemplo, segundo ela, é acompanhar a curiosidade e deslumbramento das crianças diante das espécies que nascem na agrofloresta ou na horta. O pimentão é uma delas. Quando as crianças viram ele ficar vermelho no pé, questionaram: “Mas não tem um pé de pimentão vermelho e um de verde?”, e Gabriela respondeu: “Não, gente, é que o verde ainda não está maduro”. “É como a grande ficha do universo caindo”, define.


Agrofloresta foi criada pra reduzir o calor provocado pela parede (foto). Hoje serve também para o aprendizado dos alunos.
PROJETO PARA O FUTURO
Questionada sobre o que espera colher após três anos de trabalho na escola, Gabriela afirmou que, em primeiro lugar, a sabedoria que as crianças estão adquirindo através do contato com a natureza. “Eles estão aprendendo que para a planta crescer é preciso cuidar, observar e ter paciência. No começo, todos queriam pegar tudo na horta e fomos explicando que o pezinho de hortelã, por exemplo, ainda estava crescendo. E eles foram passando o conhecimento pra outras crianças e se sentindo agentes responsáveis por aquele espaço”, avalia, acrescentando:
“Também gostaria que as crianças entendessem que a fruta não acaba na casca depois que a gente come e descarta. Existe todo um ciclo: quando devolvemos à terra aquilo que vem dela, estamos gerando vida, nutrindo o solo e possibilitando que novas plantas e novos alimentos cresçam. É muito incrível acompanhar esse processo e perceber que, quanto mais a gente devolve pra terra o que é da terra, mais ela nos devolve. É entender que fazemos parte desse ciclo, que tudo está conectado e que a vida se mantém nessas trocas com a natureza”.
“No mundo em que estamos vivendo, de maneira apressada por conta de celulares, vídeos rápidos, as crianças estão precisando aprender a respirar, esperar, observar”, acredita Gabriela, apostando no crescimento do projeto devido ao seu potencial. “As árvores da agrofloresta ainda vão dar frutas, e as possibilidades são grandes para poder trabalhar”, reconhece Gabriela.
SAIBA MAIS
COMPOSTEIRAS
Para o projeto de compostagem, a escola mantém três composteiras no modelo Super R, que são as composteiras em caixa d’água, e três leiras, também termofílicas. São utilizados dois processos de compostagem: a compostagem termofílica, que é o método da UFSC, desenvolvido na Universidade Federal de Santa Catarina, e também a vermicompostagem, que é a compostagem com minhoca (fotos abaixo).
Todos as crianças participam do projeto, especialmente na hora da separação dos resíduos. Mas nem sempre compartilham do manejo porque, segundo Gabriela, é um trabalho às vezes mais pesado. Mesmo assim, eles estão sempre acompanhando o processo.
Gabriela destaca ainda o trabalho desenvolvido com as crianças do Integral, que são as turmas de contraturno que estão envolvidas especificamente com o projeto da horta.


Fotos: Trento Froes/Divulgação Escola Praia do Riso
Texto: Sibyla Loureiro