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Há 43 anos preservada na Escola Praia do Riso, a centenária Casa Rosa é a Majestade do lugar.

Localizado no bairro de Coqueiros, o imóvel mantém a estrutura original e faz parte do espaço da instituição de ensino. Na casa, funciona a biblioteca, a sala da administração e os ambientes onde acontecem oficinas, brincadeiras, jogos e outras atividades, além da sala de descanso para os alunos do período Integral.

Construída no início do século XX, a conhecida Casa Rosa já se tornou a Majestade da Escola Praia do Riso, em Coqueiros. Também pudera. Está ali há mais de 100 anos e, apesar das adversidades do tempo e do crescimento do bairro, segue soberana no seu lugar de origem. “Um exemplo de reconhecimento e de respeito da comunidade escolar pelo seu valor histórico”, define a arquiteta Silvia Lenzi.

Em entrevista à jornalista Sibyla Loureiro, Silvia Lenzi fala do estilo eclético do chalé, do destaque que ele ocupa no centro do terreno da escola, desde a sua fundação há 43 anos, e da importância de se proteger a edificação para a memória de Coqueiros e da cidade. “A comunidade já reconheceu o seu valor. Agora só falta o reconhecimento pelo Poder Público”, coloca a arquiteta, que também mora no bairro.

 “Quando comecei a procurar creche para o meu filho visitei diversas escolas na área central da cidade. Eu morava lá e queria uma creche perto de casa, mas nenhum lugar me deixou satisfeita. Geralmente, os pátios eram cobertos por pisos cerâmicos, sombreados pelos edifícios do entorno, sem contatos com a terra e com a natureza. Foi por intermédio de uma amiga, professora da Escola Praia do Riso, que conheci o lugar. Fiquei tão encantada que trouxe meu filho para essa escola e, consequentemente, vim morar no bairro.

Confira os principais trechos da entrevista

ARQUITETURA ECLÉTICA

Para a arquiteta, a característica da Casa Rosa é de um chalé de estilo eclético. Ou seja, traz características de vários estilos arquitetônicos, peculiaridade muito própria do final do século XIX, início do século XX. Em Florianópolis, com a mudança do Império para a República, houve toda uma intenção de dar um atributo mais refinado para as edificações.

“O maior exemplo é o Palácio Cruz e Sousa, que era, originalmente, uma arquitetura colonial. Ao ser reformado, nessa época, teve toda a sua fachada tratada com elementos ecléticos. Também com a abertura da Ponte Hercílio Luz, a Rua Conselheiro Mafra passou a ser o principal acesso ao centro da cidade. Nessa rua várias casas receberam tratamento mais sofisticado em suas fachadas até então, bastante simples”, explica Silvia, acrescentando:

“Poderia se dizer que esse chalé é uma arquitetura com características burguesas.  Existiam alguns desses chalés no centro da cidade, principalmente, na Rua Duarte Schutel. Nessa rua, quando me mudei pra Florianópolis, no final da década de 70, tinham uns seis chalés”. Mas nenhum parecia tão sofisticado como a Casa Rosa.

ELEMENTOS CONSERVADOS

“O chalé é diferenciado, bastante refinado. É só olhar a delicadeza  da pintura do  teto da sua sala, a composição de madeira do piso, a própria fachada, preservada com suas principais características até hoje. É um exemplo muito especial de chalé aqui na cidade”, coloca Silvia, ao elogiar o zelo dos dirigentes da escola com a Casa Rosa.

Ao fazer um paralelo com as demais edificações do início do século, ressalta que muitas se perderam ao serem demolidas, e outras tantas sofreram alterações perdendo as suas características originais. As raras edificações que resistiram são fruto de incentivos urbanos e protegidas pela legislação que trata do patrimônio histórico. “Neste caso especificamente, o chalé mantém todas as suas características, externa e internamente. Atualmente é um exemplo raro em Florianópolis, considerando inclusive a sua implantação com características de chácara.  O valor também está na conservação e na manutenção de todas essas peculiaridades.

A MAJESTADE DO LUGAR

A preservação do conjunto formado pela Casa Rosa, circundada por figueiras centenárias, segundo a arquiteta, só reforça a importância do local como patrimônio histórico. Para Silvia Lenzi, basta adentrar o portão de entrada para perceber a magia deste lugar.

“Quem chega aqui, especialmente em dias de sol como hoje, fica encantado com a beleza do lugar: o contato com a terra, as árvores frondosas, o microclima, canto dos passarinhos… um mundo mágico cada vez mais raro de se encontrar na zona urbana de Florianópolis E eu acredito que a Kátia e a Tania, fundadoras desta escola, tiveram a mesma sensação quando encontraram esse lugar há mais de 40 anos”, diz Silvia, contemplando as crianças brincando no pátio

“E a Casa Rosa é a Majestade do lugar porque, na construção da escola houve um cuidado de não estabelecer concorrência com a Casa Rosa. Ao contrário, a disposição das salas de aula ao longo do pátio ajudou a destacar a imponência da Casa Rosa. Ela se mantém em lugar de destaque, com toda a sua majestade, preservando sua frente e suas laterais. Mesmo chegando pela lateral do chalé, é ele que primeiro atrai nosso interesse quando chegamos na escola.

E a preservação do terreno arborizado, diz Silvia, testemunha uma época dos grandes quintais com árvores frutíferas. “Eu morava em Lages e costumava passar as férias aqui, quando criança, na década de 50. A lembrança que tenho de Florianópolis é de uma cidade pequena, com casas com fachadas de azulejo, extensos quintais com pés de árvores frutíferas

Silvia lembra a obra do artista Aldo Nunes, que pintou os quintais da cidade, aplicando várias técnicas de pintura e desenho.  Um importante registro desse período.

IDENTIDADE DO BAIRRO

Num processo de verticalização, Coqueiros vem passando por esse intenso crescimento urbano. Na sua avaliação, como a permanência da Casa Rosa contribui para preservar a memória da antiga paisagem e a identidade do bairro?

Esse assunto merece uma grande discussão. “Não podemos deter o crescimento da cidade, mas os órgãos de planejamento e os gestores públicos estão aí para direcionar esse crescimento.  Quando isso não ocorre o resultado é a descaracterização violenta da cidade, com a perda de seus elementos paisagísticos mais marcantes”, avalia a arquiteta, ao acrescentar:

“As pessoas precisam, até por uma questão de saúde mental, por uma questão de identidade, ter referências do lugar onde vivem. Então, lugares como este se tornam cada vez mais importantes para garantir esse sentido de pertencimento de quem mora no bairro e de referência de identidade na paisagem deste lugar”.

UM LUGAR CARREGADO DE HISTÓRIA

Sendo assim, podemos dizer que reconhecer a Casa Rosa como patrimônio cultural é essencial para as futuras gerações?

Não só para as futuras gerações, mas por todos que aqui passaram “É um lugar carregado de memórias. Se você conversar com cada um dos alunos aqui, eles vão te contar das brincadeiras no pátio, das festas de São João, dos banhos de mangueira no verão e das lendas sussurradas ao pé do ouvido como segredos sobre a Maria Sangrenta, que se escondia nos banheiros e o marinheiro que morava na Casa Rosa. Quem frequentou esta escola, quem estudou aqui, carrega essas memórias.

 São narrativas que beiram o realismo fantástico, e que não surgem à toa. Basta saber que, recentemente, acabaram encontrando vestígios arqueológicos nessa região. Na realidade, este lugar está impregnado de várias camadas de história: no chão, na terra, nas árvores, nas edificações e nas intervenções artísticas que as crianças fazem por toda a escola.  Quem chega aqui sente essa energia, o que reforça a identidade coletiva.

VÍNCULOS AFETIVOS

Também questionamos a arquiteta quanto ao patrimônio ser construído por vínculos afetivos. E nesse caso, como ela percebia a convivência de gerações de alunos, famílias e educadores com a Casa Rosa pra ampliar o seu valor histórico e cultural?

Como resposta, Silvia disse que, por ter sido mãe de aluno da escola, ela entendia o envolvimento que todos tinham com cada cantinho dessa escola. Além da Casa Rosa, o lugar de convivência coberto, construído posteriormente, foi chamado de ¨Nosso Lugar¨ pelas crianças. As árvores têm nomes….

“Eles vão criando essa relação afetiva neste espaço aberto que tivemos o privilégio de oferecer, para os nossos filhos, como forma de suprir a ausência de uma relação cotidiana com a natureza para nós, que moramos em apartamentos.  Qual é o lugar em Florianópolis, na área urbana, que as crianças conseguem  pisar na terra? Se sujar de barro? Tomar banho de mangueira? Subir em árvores? São vivências fundamentais para qualquer criança nessa relação de homem-terra, homem-natureza”.

“Na medida em que as crianças trazem a memória dessa convivência, elas levam esse valor pro resto da vida. Elas saem da frente das telinhas e mantêm aquela identidade que a gente chama de criança raiz. Uma criança que tem a oportunidade de ver a fruta amadurecer, que sobe na árvore, que pega a fruta do galho, que acompanha a mudança das estações através da natureza¨.

“Nós não podemos perder esse tesouro. A Escola Praia do Riso é uma referência neste sentido. É um lugar onde se formam cidadãos comprometidos com a preservação da natureza. O que traduz a alma e a identidade do lugar. Temos que zelar por esse lugar, não só pela escola, não só pela comunidade, mas por toda a cidade, pois é uma referência importante também pra todos nós que moramos em Florianópolis”.

PATRIMÔNIO CULTURAL DE FLORIANÓPOLIS

Para encerrar a entrevista, Silvia Lenzi comentou sobre a importância que o reconhecimento da Casa Rosa como Patrimônio Cultural do Município vai gerar no bairro e na cidade, já que está prestes a receber tal validação.

“Eu acredito que o reconhecimento oficial será um momento de grande celebração. Afinal, esse reconhecimento tem sido dado por quem escolheu esse lugar para fundar a escola. Foi dado pela proprietária da Casa que determinou que o lugar deveria ser escola enquanto ela vivesse. Vem sendo dado por todos os pais que escolhem esta escola para os seus filhos e por cada aluno que celebra, a cada dia, com suas brincadeiras, recreio, lanches ao ar livre, este espaço saudável para o seu desenvolvimento”.

Só falta o poder público reconhecer. É simples, é muito simples. É só ter a sensibilidade e apoiar a iniciativa da Comunidade”.

PERFIL

Lageana de nascimento, a arquiteta Silvia Lenzi veio para Capital – no final da década de 70 – para trabalhar no recém-criado Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF). Funcionária de carreira, ocupou várias funções de coordenação técnica até chegar à presidência do Instituto, em meados da década de 80.

Fotos: Trento Froes
Texto: Sibyla Loureiro

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