folha-de-coqueiros-logo

UM ANJO QUEIMADO: moradora presta uma homenagem a Luciano Batista.

Luciano Batista, que morava num terreno baldio em Coqueiros, faleceu em consequência de queimaduras em 80% do corpo. Karina, vizinha que sempre o acolheu, fala do ser humano sensível que conheceu e espera que sejam descobertos os motivos que provocaram as queimaduras no conhecido andarilho.

Para alguns, ele era um morador de rua. Para outros, um andarilho ou um indigente. Para muitas pessoas, porém, Luciano, de 54 anos, era uma pessoa pura, dono de um coração imenso. Para mim, ele era um anjo. Um amigo muito amado e um irmão de coração.

Na madrugada de terça-feira, dia 11 de agosto, por volta das 2h30, recebi a notícia de que o SAMU estava socorrendo Luciano. Ele havia sido encontrado caído junto ao meio-fio, em frente ao terreno baldio que chamava de “casa”- na Rua Cel. Ivan Dentice Linhares, em Coqueiros – com grande parte do corpo queimado. Segundo as informações que recebi, já estava inconsciente, mas ainda com vida.

Aquele terreno era sua casa, mas o teto era o céu. Os cômodos eram a mata e as ruas, e sua família eram os animais, as árvores e as pessoas de coração sensível o bastante para verdadeiramente enxergá-lo.

Luciano foi levado ao Hospital Governador Celso Ramos. Depois de procurar informações em hospitais da Grande Florianópolis, consegui encontrá-lo. Pela manhã, fui até o hospital para saber como ele estava e acompanhar a assistência que estava recebendo.

Com a ajuda da assistente social e das enfermeiras pude permanecer – por alguns momentos – ao seu lado. Conforme a avaliação médica, Luciano apresentava queimaduras em aproximadamente 80% do corpo e seu estado era gravíssimo. Dentro do que me foi permitido acompanhar, pude ver que ele estava recebendo os cuidados e tratamentos necessários.

Ainda naquele dia, foi encaminhado para uma cirurgia de limpeza dos tecidos atingidos. Depois, tive a oportunidade de visitá-lo na UTI.

Durante todo esse processo, tive ao meu lado uma amiga muito querida, que também era próxima de Luciano. Juntas, sempre procurávamos acolhê-lo e permanecer atentas ao que ele precisava, todas as vezes em que tínhamos a oportunidade de estar com ele. E assim foi também nos últimos momentos de sua vida, seguimos próximas, cuidando e acompanhando com amor.

Na manhã de quarta-feira, dia 12 de agosto, foi essa amiga querida quem esteve no hospital – enquanto eu trabalhava – e recebeu a notícia de que Luciano havia falecido.

Diante da gravidade e das circunstâncias desconhecidas em que ele havia sido encontrado, registramos um boletim de ocorrência e compartilhamos o registro com a assistência social do hospital. Após seu falecimento, Luciano foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), para os procedimentos necessários. Até o momento em que escrevo este relato, ainda não sei o que provocou as queimaduras.

Logo após receber a notícia de sua partida, percorri as ruas e os lugares por onde ele costumava passar, em Coqueiros. Encontrei algumas das pessoas sobre as quais falava em nossas conversas, entre elas um casal muito amado, que sempre o acolheu e que Luciano considerava sua família.

Na verdade, eles deveriam se chamar Amor, porque é assim que se expressam. Também foram um presente que Luciano me permitiu encontrar.

Luciano encantava as pessoas com seu jeito alegre. Muitas vezes, vestia fantasias que pareciam acompanhar o seu estado de espírito naquele dia.

Amava um cafezinho e, embora aos olhos de muitos parecesse não possuir nada, havia transformado o mundo inteiro em sua casa.

Apesar de toda a sua vulnerabilidade diante da vida, nunca ouvi ele dizer algo ruim sobre alguém ou sobre aquilo que lhe acontecia. Ele enxergava Deus em todas as coisas e olhava a vida sempre por uma perspectiva divina. Trazia palavras sábias e amorosas, que encantavam quem realmente parava para ouvi-lo.

Eu mesma saía à sua procura pela orla, com a alegria e a esperança de uma criança que deseja encontrar aquele amigo do coração. Quando o encontrava, era sempre um presente.

Que grande sorte a minha ter encontrado esse amado amigo nesta vida. Mais do que encontrá-lo pelas ruas, tive a graça de reconhecê-lo, me ensinou a enxergar “todos em um e um em todos”: um só Deus presente em todas as coisas.

Era um ser puro e amado, escondido sob o rótulo de “morador de rua”. Quem não o discriminou teve a graça de conhecer a nobreza de seu coração.

Pelo que ele me contava, era órfão de pai e mãe, havia sido criado por uma família adotiva e teria dois filhos: um menino e uma menina. Não conheço seus nomes nem sei onde se encontram. Essas são partes de sua história que conheci por meio das palavras dele e que guardo com respeito em minha memória.

Este texto não é uma busca por provas ou respostas. É o relato daquilo que sei e, sobretudo, uma homenagem à vida desse amigo, para que sua passagem por este mundo não seja resumida à maneira trágica como ele partiu.

Que sua história nos desperte. Que aprendamos a olhar com mais atenção para aqueles que tantas vezes se tornam invisíveis aos olhos do mundo.

Luciano partiu marcado pelo fogo, mas se transformou em lamparina dentro de nossos corações.

Grande foi a nossa sorte por termos recebido esse presente divino, que, de maneira tão humilde e sutil, espalhou alegria por onde passou.

Que sua luz nos ajude a enxergar.

Com amor,
de sua eterna amiga e irmã de coração,
Karina.

Luciano Batista
Nasceu em 8 de março de 1972.
Faleceu em 12 de agosto de 2026.

Grupo de WhatsApp

Agora a Folha de Coqueiros tem um Grupo Exclusivo e Fechado de WhatsApp! Se você quer ter acesso às notícias de Coqueiros e Região, clique no botão abaixo e fique por dentro dos acontecimentos do bairro!