Em entrevista à jornalista Sibyla Loureiro, o biólogo Rodrigo Pelágio, o Kiko, destacou a importância de preservar as árvores no pátio da escola e promover a educação ambiental junto aos alunos da instituição.
Subir em árvores, andar com os pés na terra, ouvir o canto dos pássaros, brincar ao ar livre e aprender, na prática, iniciativas de educação ambiental como descartar o lixo corretamente e viver num ambiente saudável. Isso e muito mais faz parte da rotina dos alunos da Escola Praia do Riso, assim como as disciplinas previstas em cada ano do ensino infantil e do fundamental. Lembrando que essa rotina só é possível graças à imensa área verde preservada – há quase 50 anos- no coração de Coqueiros.
Para conhecer um pouco mais da vegetação espalhada pelo terreno que abriga a instituição, entrevistamos o biólogo Rodrigo Pelágio Alves Ferreira, o conhecido Kiko, 58 anos, responsável pelo Projeto Frutificar, programa que tem como foco principal o plantio de árvores em vários locais da Capital.
Nascido na mesma rua da escola, a Bento Goia, Kiko viveu na época em que Coqueiros tinha poucas ruas calçadas e as propriedades mantinham grandes pomares. “Nossa diversão era subir nas árvores da vizinhança para comer frutas. E o pé de saputi aqui da escola – que ainda está preservado – era um deles”, relembra Kiko, ao apontar a importância da proteção ambiental no pátio da instituição.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
EQUILÍBRIO ECOLÓGICO
Para o biólogo, um dos destaques do espaço são as espécies nativas e exóticas que mantêm o equilíbrio ecológico. Como exemplo, ele cita o caso de uma figueira de origem asiática que, embora exótica, tem um valor ecológico muito grande para a fauna. “Para as aves, não existe essa diferença. A percepção vem dos pássaros mais velhos, ou seja, se um indivíduo juvenil vê um adulto saudável da mesma espécie se alimentando de um fruto comestível, ele se alimenta também”, explica.
Além disso, completa o biólogo, se observa que existem mais de dez espécies de epífitas — são plantas que crescem no caule da árvore – como cactáceas e bromeliáceas. “E todas elas têm frutos, dos quais as aves se alimentam, e vão pousar – de uma árvore na outra -e levam as sementes, que depois excretam pelas fezes, e aí ficam ali, crescem. Então, elas também contribuem para o equilíbrio ecológico, tudo contribui. São centenas de espécies de aves que se alimentam desse figo e disseminam por aí”, explica.
REFÚGIO PARA A FAUNA
As figueiras, que ficam no terreno próximas ao mar, são um refúgio para avifauna, ou seja, o conjunto de todas as espécies de aves que vivem ali. Socós, garças, biguás e até um casal de jacus e um aracuã, espécies raras encontradas em um ambiente urbano, foram avistadas no local.
“Trata-se de uma área verde remanescente no bairro. Mostra a raridade desse lugar. A coisa mais linda que vejo aqui é a história dessa figueira asiática. Então, vejam a importância para a criançada aprender e identificar a diferença das árvores exóticas e nativas”, aponta.
COMBATE À DEPRESSÃO
Além da biodiversidade, outro benefício citado por Kiko – tanto para a comunidade escolar quanto para os moradores do bairro-, é o uso medicinal. Pesquisas apontam que uma das formas mais eficazes detrazer sentimento de bem-estar para as pessoas, de levá-las de uma situação de estresse para uma situação de tranquilidade, de paz, é ouvir o som e o avistamento de aves.
“Hoje é usado, inclusive, como terapia. Como tem a ecoterapia com cavalos e o uso de cachorros também as aves são usadas para tirar pessoas da depressão. Digo isso porque meu filho também usou. Ele passou por um período difícil e usou o avistamento de aves como estratégia. Acabou apaixonado e comprou equipamento fotográfico para registrar as espécies. Então, avistar e ouvir os cantos das aves traz paz para a pessoa e remete ao bem-estar”, diz.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Sobre a importância das árvores, nunca a pauta esteve tão presente como nos dias atuais. “Nós, enquanto biólogos, enquanto ambientalistas, rogamos pela arborização urbana”, diz ao citar os sérios problemas enfrentados nas cidades, que são as ilhas de calor.
São os espaços onde houve a impermeabilização do solo, principalmente a substituição pelo concreto e pelo asfalto, onde o solo já não respira, não drena a água, e acaba aquecendo por conta da incidência do sol. “Quer dizer, o revestimento artificial emite e reflete o calor, ele não absorve e dissipa como no caso da terra. Que nem essa daqui da escola: aqui bate o sol, o calor é absorvido e dissipado. No concreto, no asfalto, ele absorve e retém o calor, e transforma o espaço numa ilha de calor”.
“Estamos cobrando do poder público o plantio de árvores, em massa, para evitar esse processo de aquecimento do planeta. É a estratégia mais barata, mais rápida, mais eficaz de diminuição dos efeitos do aquecimento global. Tanto que países como Índia, a China e vários países africanos estão usando para o combate à desertificação e ao aquecimento global a arborização”.
UMA ILHA VERDE NA ESCOLA
A escola é um exemplo citado por Kiko como uma ilha verde onde acontece exatamente o contrário: a incidência do calor solar é absorvida pelas plantas, pela fotossíntese, e depois elas promovem a evapotranspiração — é a transpiração das plantas, onde elas soltam vapor de água, e esse vapor é uma das maneiras mais eficiente de diminuir a temperatura do entorno.
Tanto que, debaixo de uma árvore, é documentado cientificamente que se diminui a temperatura em relação ao entorno em, no mínimo, cinco graus. “Então, se aqui a gente estivesse numa situação de 30 graus centígrados ao redor, debaixo de uma árvore a gente estaria numa sensação de 25 graus centígrados, que já é uma temperatura agradável. E quanto maior o porte da árvore, maior a função nesse processo de dissipar a temperatura”, coloca Kiko.
CONHECENDO AS ÁRVORES
Aprender desde cedo a identificar as árvores e saber a diferença entre nativas e exóticas, é um conhecimento até para um caso de sobrevivência, lembrou o biólogo na entrevista. Ele destaca também que é uma questão de segurança alimentar e explica:
“Em primeiro lugar, podemos observar o processo de subir em árvores, um contato que as crianças, infelizmente, perderam ao longo do tempo, sejam elas nativas, sejam exóticas. Sendo um processo natural e evolutivo do ser humano, traz uma grande diferença até no físico, no aspecto fisiológico das crianças, que hoje estão mais sentadas, deitadas, olhando as telas do celular. Quando uma criança sobe numa árvore, ela já se fortalece fisicamente e também favorece a digestão alimentar porque está em movimento”.
Já a identificação de uma planta que produz frutos comestíveis está relacionada à segurança alimentar, o que ajuda, principalmente, em desastres ecológicos. “Um conhecimento que já salvou muitas vidas: no tsunami na Indonésia, quando pessoas subiram em árvores e ficaram, durante dias, se alimentando ali, até a água baixar; no Rio Grande do Sul, a mesma coisa”.
De acordo com Kiko, a questão tem provocado debates junto aos órgãos públicos no sentido de promover um projeto de segurança alimentar baseado em árvores frutíferas, sejam nativas, sejam exóticas, principalmente em casos de hecatombes naturais, que já estão se intensificando.
Sendo assim, esse processo da Escola Praia do Riso estar preservando espécies frutíferas como o saputi, a pitangueira, o cajueiro e as crianças aprenderem que os frutos são comestíveis servem para uma situação de necessidade para matar a fome. “Quantas crianças sabem que um saputi é comestível, ou que aquela fruta é uma espécie nativa importantíssima para a fauna e como segurança alimentar?”, questiona.
Para o biólogo, as crianças saberem disso, subir em árvores e manter contato com essas frutas e ainda levar esse conhecimento da infância para a fase adulta e depois passar para os filhos, é importantíssimo.
CORTAR ÁRVORES E COMPENSAÇÃO
Sabe-se que existe uma regra no corte de árvores que é chamada de compensação. Quanto maior a árvore, mais espécies terão que ser plantadas. O que você, como biólogo, acha disso?
“Esse processo é bastante criticado pois, por exemplo, essa figueira aqui da escola que já tem dezenas de epífitas produzindo frutos para a fauna (plantas que crescem sobre o tronco de uma árvore que apresenta uma certa idade), traz um valor ecológico muito maior do que só a espécie em si — ela virou um ecossistema”, argumenta, ao acrescentar:
“Basta ver a quantidade de insetos que vivem nessa árvore e a quantidade de outras espécies vegetais que crescem sobre ela. Essa árvore, em si, pode ter muito mais biodiversidade do que toda uma região da Groenlândia, por exemplo. Digamos, de um país de clima frio ou temperado, onde a biodiversidade é bem menor por conta do clima”.
“É nesse sentido: tu cortas uma árvore dessas, que virou um ecossistema, e plantas uma outra nova — mesmo que de uma espécie nativa, ela vai demorar décadas para ter o mesmo valor ecológico, se tiver. Porque, se todo o entorno for sendo devastado, nunca que ela vai ter a mesma biodiversidade de uma outra espécie, mesmo que exótica, que nem essa”, afirma Kiko.
UM ESPAÇO IMPORTANTE PARA COQUEIROS
Para encerrar a nossa entrevista, na tua opinião, por que é tão importante preservar esse espaço verde da Escola Praia do Riso para o futuro da comunidade de Coqueiros?
Sei que todo o bairro de Coqueiros tem um carinho gigante pela APPR. E mais do que tudo identificamos, aqui, um local de educação ambiental.
Primeiro, destaco a convivência das crianças em um ambiente extremamente saudável, onde elas podem subir em árvores, andar descalças, com o pé no chão, trocando energia. Tem todo um nível de convivência diferente de uma escola comum, tradicional.
E passar esse conhecimento às crianças é muito importante como a preocupação com o descarte consciente do lixo, manter uma composteira no pátio da escola e promover ações de conscientização ambiental. É uma escola parceira neste sentido, inclusive, em conjunto com a Pró-Coqueiros, associação da qual faço parte e já fui presidente.
Defendo que a educação ambiental devia ser política pública também das escolas municipais e estaduais, das universidades, mas promoverem de fato, como a gente faz aqui na Escola: de levar a criançada para fazer uma limpeza na praia, de executar um processo de educação em relação ao lixo urbano.
E agora, vamos promover um outro processo ligado à arborização consciente. Então tudo isso é importantíssimo: eleva, potencializa o valor da escola dentro do bairro e dentro da cidade, como um instrumento transformador da consciência social em relação ao meio ambiente. Isso, pra mim, é o principal.