“Conhecer mais sobre uma pessoa que faz parte da escola é estar aberto e atento às vidas que nos atravessam todos os dias e atravessam nossa história coletiva”, professora Marina Borges.

As crianças e trabalhadores da Escola Praia do Riso acabam de ganhar mais uma protagonista que marcou a história do Brasil. Dessa vez, a personalidade escolhida é Antonieta de Barros que vai integrar, ao lado de Luíza Mahin, Antônio Carlos de Souza e Carolina Maria de Jesus, o Mural Pedagógico da escola. Produzida pelo artista Bruno Barbi (foto), a obra está instalada ao lado da quadra de esportes e foi recém-finalizada.
Iniciado em 2019, o Mural recebeu restauração e foi ampliado pelo artista. Conhecido na cidade pelo resgate de personagens negros e negras identificadas pelas lutas sociais, Bruno Barbi começou a pintura com o busto do zelador da escola, seu Antônio Carlos de Souza.
“A pedido da professora Marina Borges, retratei o zelador depois de pedir a ele autorização para tirar uma foto e conhecer a sua biografia”, diz Bruno, durante entrevista à Folha de Coqueiros e sob olhar atento do homenageado.
Uma reverência merecida, é verdade. São 25 anos de trabalho e dedicação aos alunos e à instituição. “Quando cheguei aqui não tinha nada. Fiz muitos brinquedos para as crianças como balanços e casinhas. E elas gostam tanto que muitas vezes nem querem voltar pra casa”, aponta ao definir a sua imagem fixada no Mural:
“É um reconhecimento do meu trabalho”, celebra seu Antônio, 64 anos. Prestes a se aposentar, ele lembra com carinho que foram os próprios alunos que escolheram o seu nome para inaugurar a obra.


O zelador Antônio Carlos de Souza inaugurou o Mural a pedido dos alunos. Na foto, com Bruno Barbi.
OS DEMAIS BUSTOS
Em 2021, foi a vez de Luísa Mahin, uma mulher negra liberta, quitandeira e líder revolucionária na Bahia do século XIX, reconhecida como mãe do abolicionista Luiz Gama. Nascida na Costa da Mina, era símbolo de resistência, envolvida na Revolta dos Malês (1835) e Sabinada (1837). Figura altiva e corajosa, foi perseguida e desapareceu após fugir para o Rio de Janeiro.
O outro é de Carolina Maria Jesus, mulher favelada que catava papelão para alimentar os filhos. Escrevia o cotidiano no seu diário que deu origem ao livro Quarto de Despejo, que relata o dia a dia triste e cruel da vida na favela. A linguagem simples, mas contundente, comove o leitor pelo realismo e pelo olhar sensível na hora de contar o que viu, viveu e sentiu, nos anos em que morou na comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos.

Carolina Maria de Jesus e Luísa Mahin
Por último, o busto de Antonieta de Barros, uma pioneira jornalista, professora e política brasileira, reconhecida como a primeira deputada estadual negra do Brasil e uma das primeiras mulheres eleitas no país, em 1934, por Santa Catarina. Filha de lavadeira, nasceu em Florianópolis, em 11 de julho de 1901, defendeu ativamente a educação de qualidade, a emancipação feminina e o combate ao racismo.
Embora acostumado a pintar o busto de Antonieta de Barros em diversos lugares da cidade como na Escadaria do Rosário e no IFSC Continente, Bruno Barbi se declara emocionado ao pintar o busto da professora no Mural. “Dessa vez, tive que refazer a sua imagem”, confessa.
“Antonieta foi uma figura histórica por diversos fatores e um deles é que foi a primeira deputada negra do Brasil e a única eleita em Santa Catarina. Ou seja, depois de quase 100 anos, ela continua sendo a única deputada negra eleita no estado”, afirma.


A professora, jornalista e deputada Antonieta de Barros
UM DESAFIO
Segundo o artista, a escola mostrou o seu comprometimento frente a um assunto que expõe a contribuição de africanos e afrodescendentes na construção do país. “É muito saudável para as crianças e para a escola, a meu ver, de tornar visível a história e cultura afro-brasileira no Brasil. Sabe-se que, por conta da lei 10.639 de 2003, as escolas são obrigadas a abordar a temática, mas nem sempre a lei é seguida”, lamenta.
Quanto ao fundo verde usado no Mural, Bruno comenta que foi uma característica nova na sua arte e um desafio. “Tentei restituir o cenário antigo e preservar a memória de um local que mantinha uma vegetação abundante e que emoldurava a pintura. Hoje, ao contrário, um grande muro foi erguido para separar a escola do prédio construído ao lado. Então, foi uma maneira encontrada de contar para as crianças que chegaram agora na escola”, diz.
COMO NASCEU O MURAL

Tudo aconteceu em 2019 quando os alunos, do 4º ano, começaram a pesquisar biografias de pessoas que marcaram a história do país, com destaque para personalidades negras e indígenas. Orientadas pela professora Marina Borges, as crianças perceberam, no estudo, que muitas histórias não foram registradas. E algumas sequer foram mencionadas.
“Houve um apagamento do povo negro e indígena em Santa Catarina, no Brasil e no mundo”, coloca a professora que resolveu sair a campo, com os alunos, para ampliar a pesquisa. Visitaram a Feira Afro, na Escadaria do Rosário, entrevistaram os feirantes e organizadores, e ainda conheceram o artista Bruno Barbi e suas obras.
“Fizemos um convite para que ele pudesse pintar um dos rostos que estudamos e ele aceitou. No momento de decidir qual personalidade iria para o nosso muro, uma criança sugeriu: “Por que não pintamos o seu Antônio? Ele é uma pessoa importante aqui na escola!”, perguntou.
Recebida com entusiasmo por todo o grupo, a ideia foi levada até o seu Antônio. “Propus que, antes de pintarmos, precisávamos perguntar a ele se aceitava ter a sua imagem aplicada no muro da escola. Com a sua concordância, escrevemos a sua biografia coletivamente”, assinala a professora Marina.
Já em 2021, as outras duas personalidades – Luíza Mahin e Carolina Maria de Jesus – foram retratadas junto com a professora Cláudia Duwe. Seguindo a mesma proposta de estudar as biografias, foi dividido um grupo grande de alunos do 5º ano. E a partir daí, o convite foi renovado ao artista.
E, agora, em 2026, Bruno Barbi volta à escola para retocar a sua obra e incluir também a memória de Antonieta de Barros ao Mural, pesquisa que fez parte das aulas do 3º ano. “Foi uma forma de eternizar o legado dessa importante mulher em nosso espaço”, argumenta Marina Borges, ao acrescentar:
“A intenção deste projeto é colocar em evidência pessoas negras que contribuem na história do nosso país. Foi por meio da existência delas que hoje temos conquistas importantes. A ideia de representar por meio da imagem é para que mais pessoas tenham acesso às suas biografias e se aproximem mais da história que nos constitui enquanto cidadãos”.
A próxima etapa, segundo a professora, é colocar os nomes e refazer as placas das biografias.
GALERIA











Antônio Carlos de Souza e Bruno Barbi com a jornalista Sibyla Loureiro, editora da Folha de Coqueiros.
Fotos: Trento Froes
Texto: Sibyla Loureiro