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As Pedras de Itaguaçu: Crônica de Raul Caldas

31 OUT 2017


As pedras de Itaguaçu

Raul Caldas Filho*

É fato incontestável que o visual da Praia de Itaguaçu, em Coqueiros, é um dos mais raros e esplendorosos do mundo. As suas plásticas e admiradas pedras emergindo das águas, com sua variedade de formas e dimensões, como se fossem esculpidas no capricho pelo próprio criador Supremo, têm surpreendido e encantado muitos visitantes e é um motivo perene de prazer estético para os que aqui vivem. Há quem afirme que elas foram expelidas com ardente matéria do extinto vulcão que deveria ter sido o Cambirela, em remotíssimas eras geológicas, quando o bicho-homem ainda nem era projeto. Tal fenômeno, porém, ninguém provou.

 Mas como todo o agrupamento que a natureza une nos reinos mineral, animal e humano existem as pedras mais salientes e as mais discretas (algumas são tão discretas que só aparecem na maré baixa), as mais portentosas e as mais insignificantes, as mais famosas e as mais obscuras. A Cleópatra, por exemplo, só pode ser uma pedra exuberante e majestosa como a bela rainha egípcia que inspirou a sua denominação. Já a Pedrinha, como a designação indica, é tão tímida que só deixa à mostra pequena parte do seu dorso. É a predileta da gurizada para os seus mergulhos.

 Muito conhecidas são as pedras Is, ou seja, agraciadas com a letra “i”, marcas registradas de Itaguaçu. São compridas como uma espiga de milho e equilibram em seus cocurutos duas pequenas pedras circulares, que se assemelham aos pingos dos “is”. Uma delas fica à beira da praia, próximo ao local onde, em outros tempos, funcionou o Bar da Pedra. Que era ela, é claro. A outra fica mais distante, possuindo as mesmas características.

 Famosa também é a Ilha dos Piratas, que como o nome revela não é só uma, mas um conjunto de rochas formando uma quase ilhota. Nos meus tempos juvenis nadar até lá era uma aventura digna dos filmes de Errol Flynn.

 Há ainda aquelas que, devido a semelhanças óbvias com certos órgãos pertencentes à anatomia humana, receberam apelidos não muito sutis, como a Pedra Bunda (o mais ameno deles). Os outros são impróprios para menores.

 E, como não poderia deixar de ser, habitantes marinhos também foram homenageados, como pode-se perceber pela relação a seguir: Tartaruga, Moçambique, Lage do Mero, Pedra da Baleia, Pedra do Miraguia e Pedra do Tubarão, esta última mais perto da Associação do Banco do Brasil. 

 Já três delas, próximas uma das outras e com tamanhos semelhantes foram chamadas de Três Reis Magos. Outra, por sua conformação assemelhando-se a uma Botinha de Criança, foi assim mesmo denominada na pia batismal dos freqüentadores da praia, em tempos que não se sabe quando.

 Têm ainda a do Pedregau, do Marreco, V1, do Cagão, da Culapada, do Buqueirão e do Xaveco. E a Pedra Branca, cujo alvo dorso é pista de pouso e base das gaivotas, que ali fazem ponto entre uma refeição marinha e outra.

 As mais distantes são a Pedra Funda e a Robison Crusoé, em tributo ao solitário personagem de Daniel Defoe, que passou anos numa ilha deserta. 

 Assim são chamadas as pedras de Itaguaçu. E, de qualquer forma, grandes ou pequenas, esféricas ou verticais, troncudas ou roliças, elas formam um dos mais notáveis conjuntos geológicos do planeta, marcas indeléveis da ação do tempo e da natureza, embelezando o cenário da Baía Sul e da Ilha-Cidade, como permanentes pérolas. 

*Jornalista e escritor

Fotos Marcelo Bittencourt

 

 

 

 


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